4.12.06

Casca de ferida

Vez por outra a gente se depara com alguém que passou por um sofrimento muito grande. Tão grande que não encontramos nem palavras de conforto, não sabemos o que dizer. Às vezes é uma doença muito séria, ou um revés financeiro terrível, ou mesmo a morte de um ente querido. E a pessoa está lá arrasada, com toda a razão.
Mas o tempo passa e muitas dores, quando não acabam de vez, ficam muito mais suportáveis. E a gente vê aquela pessoa que sofreu tanto voltar a tocar a vida da maneira mais normal possível. É o natural, é o que costuma acontecer.
Só que tem aqueles que se recusam a deixar o tempo curar, ou pelo menos suavizar, suas feridas emocionais. O sofrimento deles é real e o motivo é justo. No entanto, é intempestivo. E eles mesmos sentem isso. Eles próprios percebem que a dor não é mais aquela, não tem mais a mesma intensidade, que aquilo vai virar uma cicatriz. Só que eles não deixam. Fazem questão de reabrir a ferida, de renovar a dor, de futucar com a unha a casquinha pra que aquilo sangre de novo.
Não estou falando de alguém que quer se fazer de vítima, não é isso. Nem daquele que sofre de depressão ou de qualquer outro mal emocional. Falo daquele que considera a dor uma auto-punição, algo merecido, e que não deixa que esta amaine por se considerar indigno de alcançar o alívio. É... tem a ver com culpa. Quer expiar uma culpa qualquer que imagina ter pela dor. É como se dissesse: "ó, tá certo que pisei na bola, mas, em compensação, olha só como estou sofrendo!!!"
Desnecessário dizer que o sentimento de culpa não se acaba e que a convivência com alguém assim é complicada. Péssimo de se observar isso.
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